Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes - Prosa
 

Critica de cinema

Resposta a um leitor de Belo Horizonte

Vou repetir sua dificuldade, meu caro Ruben Muller, em relação à minha frase sobre o cinema que "visualiza" e o cinema que não visualiza. Diz você em sua carta: "Uma frase sua me pareceu imprecisa: 'O pensamento é essencialmente cinemático, sobretudo quando não visualiza." E você confessa não saber em que sentido eu emprego esse "visualiza", declarando compreender a colocação somente em relação ao cinema puro, achando-o errado desde que se coloque o problema de sucessão, do tempo, da continuidade de imagens.
Ora muito bem. Você deve ter notado que ao escrever esse "visualiza" na frase acima eu carreguei-a de um determinado sentido, eu poderia quase dizer de uma astúcia verbal, para que melhor pudesse servir ao paradoxo aparente que determina. Mas não há nenhum paradoxo. A câmera do bom cineasta serve à vida antes de tudo. Ela passou a ver a própria vida, compreende você, num écran que, pela sua forma geométrica mesma, é bastante semelhante ao écran visual que temos todos no rosto, limitado ao norte pelo frontal, a leste e oeste pelos temporais e ao sul pelos maxilares superiores (perdoe a ossificação: o que eu quero mostrar é a cavidade ocular da caveira, bem mais simples...). O écran do bom cineasta funde-se com a terra que o circunda, alarga-se numa nova dimensão, libertando singularmente o que a câmera captou. Veja Chaplin, o eterno Chaplin, por exemplo. Sua tomada é simples, o mais real possível, o mais natural possível. Chaplin espera pacientemente o "momento cinematográfico", isto é, o instante em que a imagem se faz cinema, em que deixa de ser simples instrumento fotográfico para usá-la como unidade contínua. Waldo Frank conta em seu ensaio sobre o criador de City Lightsnte semanas a fio a mesma cena pacientemente, à espera que a imagem recolha toda a vida de que é capaz. Você vê, não há "visualização", nesse sentido de se criar uma imagem visual da "tomada a fazer". Há uma perseguição da vida na imagem, a busca do seu instante cinemático. Você quando ouve Debussy fica logo (pelo menos comigo dá-se isso) com aquela tendência invencível para emprestar uma forma à música, torná-la cinematicamente contínua. Ora, isso é impuro, não de mim, mas da música, que se deve ter resolvido, no instante da sua criação, num plano de imagens visuais. Bach, por exemplo, nunca provoca isso, nem Beethoven, nem Mozart, nem César Franck, nem Stravinsky, para usar um moderno. Agora, vejo Tchaikovsky, vejo Liszt, vejo certas coisas de Brahms, certas coisas de Wagner, Ravel quase que inteiro etc... Não acha você?
Dá-se o mesmo num outro campo, com relação ao cinema, eu diria: com relação a qualquer arte que não seja primordialmente plástica.
A natureza cinematográfica da imagem é fundamentalmente antivisual, nesse sentido em que não se vê a vida, quando se está vivendo verdadeiramente, isto é, amando, sofrendo, criando, trabalhando em algum trabalho interessante, planejando alguma coisa rica em emoções, não importa o quê.
Não sei se me faço entender. Preciso explicar a você que esta crônica é em geral feita ou na redação ou em casa, de manhã, rapidamente, porque estou afogado em outros serviços. Por um lado é bom, porque vou escrevendo o que vem espontaneamente ao pensamento. Mas por outro é mau, uma vez que não posso concentrar melhor idéias que são em si tão simples, perdendo-me sempre em frases que nascem de pontuações apressadas.
Mas você é inteligente. Isso é meio caminho andado. Repise o problema em sua cabeça com esses novos dados. Veja se eu não tenho razão. E deixe dessa história de cinema puro, que essa coisa é muito vaga demais. A arte é a coisa mais impura que há, eu digo impura com caráter, compreende? E graças a Deus. Negócio de pureza absoluta é muito cacete, meu caro. É coisa de surrealista. Sejamos franciscanos, se você quiser. Mas puros, nesse sentido, pra quê?


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