Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes - Prosa
 

Critica de cinema

Sangue de pantera (I)

Um grande filme é uma coisa de sensibilidade tão fácil, que - força e persuasão da imagem visual - freqüentemente vence o embrutecimento do público, provocado pelo hábito de ver mau cinema e pelo vício de aceitar tudo que lhe dão: ir ao cinema, tomar café, jantar, ir ao cinema…
A assistência de Sangue de pantera não era grande, no dia em que eu fui assistir ao filme. Também não era pequena. Na saída havia no rosto de todos uma certa surpresa. Ninguém dizia, por exemplo: "Que bobagem essas fitas fantásticas de gente que vira bicho!" - e outras frases que se costumam ouvir em fitas de Drácula, Frankenstein, Homem-Lobo, e as do gênero. Não. Havia respeito, havia impressão. Coisa simples, no fundo: arte. A arte que faz do banal, sublime; do lugar-comum, sabedoria; de um caso absurdo de licantropia, uma obra-prima de cinema, com a sugestão do real. Depois, ninguém "representava". Ninguém ali era Marlene Dietrich, nem Melvyn Douglas. Eram tipos diante da câmera. Simone Simon, que pode ser uma atrizinha insuportável nas mãos de um diretor medíocre, é uma das criaturas mais formidáveis que há, quando pega um bom diretor, o Renoir da Bête humaine ou esse facques Tourneur, agora. Sua interpretação é de uma simplicidade e de uma sinceridade extraordinárias. O filme entra bem, com o maior desembaraço, e persegue o clímax onde quer que seja. Aponto à toa momentos esplêndidos: o de Simone Simon com seu namorado, na sala escura; o encontro com a outra cat woman, no restaurante; a cena da chave na jaula, quando incute na mente de Simone Simon a idéia de deixá-la aberta; a perseguição da "outra", na rua silenciosa, empolgante; a da piscina, onde se faz cinema como há muito tempo não víamos tão bem-feito; a do escritório de arquitetura - que iluminação magnífica - quando a pantera entra e põe-se a caçar o casal dentro da sala; a do trucidamento do psiquiatra e todo o final, culminando com a fuga da fera e a morte da jovem heroína. Tudo do melhor estilo, da melhor direção, com uma sucessão notável e um sentido de revelação formidável. Sob esse aspecto o filme é quase uma aventura mística. Amanhã voltarei ainda sobre ele, pois preciso muito lembrar-lhe certos detalhes que agora não me ocorrem, ou me ocorrem imperfeitos. O melhor é mesmo a RKO programá-lo novamente, para a gente poder revê-lo em paz. Tem tudo para se dar com ele uma aula completa de cinematografia viva.


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