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Por que amo Paris

, Senhor, 12/2018

     Em dezembro de 1938, um jovem bolsista brasileiro para a Universidade de Oxford (com perdão do estilo Time Magazine...) tiritava num quarto de pensão em Londres, a que nada, nem mesmo seu coração apaixonado, conseguia aquecer. Tratava-se, segundo as manchetes, de um dos mais terríveis invernos do século e era impossível sair por muito tempo à rua sem que as orelhas do malfadado se descolassem e seu nariz saísse batendo as asinhas. 

      O jovem bolsista, envolto em mil cobertores, lia sem parar os seus primeiros autores ingleses de sustância e que, por essa razão, associam-se até hoje, em sua mente, à idéia de frio: John Bunyan e Jane Austin. Um tal enfurnamento, passado usualmente em posição horizontal, determinou, é claro, uma reviravolta completa em seus horários. Ia dormir quando a neve colada aos vidros de sua janela (sua primeira neve!) começava a fazer-se mais alva com a luz da madrugada; e acordava à tarde, com o café da manhã a olhá-lo de mau humor com o seu negro olhar gelado. Sua inapetência era tal e seu frio tão grande que data daí um respeito britânico pelo uísque como agente calefator; cujo uísque, vazado a princípio em poções preventivas, provou ser tão útil que começou a ser ingerido em doses federais; e a verdade é que o jovem bolsista ainda não estava preparado para tanto. Seu temperamento imprudente e sua impaciência entraram em ação e uma noite ele saiu. O resfriado que apanhou resultou tão recalcitrante que, juntando umas poucas libras, resolveu ir curá-lo em Paris.
 
      Em boa hora! Nunca mais lhe sairia da memória sua chegada, sem dinheiro e sem orientação, a essa cidade amanhecente que teria um papel tão decisivo em sua vida. O táxi que tomou na estação devia ser um remanescente da grande corrida para o Marne, na Guerra de 14, e o chofer bigodudo um velho poilu, a quem por certo não faltaria uma cicatriz de baioneta no flanco. Era tudo azul e cinza-azul, como no soneto de Rubem Braga: uma coisa indescritível de beleza. E como a beleza está no homem e não nas coisas, esse seria o seu instante de estesia máxima diante de Paris, para a qual, desembarcando muitas vezes depois, em circunstâncias parecidas, deitaria um olhar apenas amigo ou conivente. 

      O jovem bolsista lembra-se de haver pedido ao chofer que o levasse a um hotel qualquer bem barato. O velho olhou-o por sobre o ombro com uma severidade não isenta de simpatia, ubicou-se por uma ponte, deu voltas num labirinto de pequenas ruas e afinal parou diante de uma fachada très vieux Paris, onde havia escrito: Hotel St. Thomas d'Aquin. Era na rue Près-aux-Clercs, no coração do Quartier Latin. Lembras-te, Di? 

            Lembras-te, Di
            Cavalcanti, Di 
            Amante da noite 
            Di superior 
            Ao dia, diante 
            Do amor, ante 
            Rior ao México 
            Anterior a tudo 
            Di sem hora de 
            Boina se rindo 
            Se rindo de 
            Consuelo de 
            Saint-Exupéry 
            E do sargento 
            Tirso Di de 
            Madrugada chegando 
            Da Rádio Di 
            De la Coupole 
            Bebendo champagne 
            Dez francos a taça 
            Diagrama de Di 
            Mi sol si ré lá 
            Bordão que eu vi 
            Ébrio de seios 
            Ventre coxas Di 
            Di de Montparnasse 
            Di de Paris. 


      Lá vai ele, o jovem bolsista brasileiro para Oxford, sem um franco no bolso e um argueiro no olho que não o deixa ver Paris pela primeira vez. Dinheiro, o amigo Cícero (1) lhe emprestará algum, se for preciso. O argueiro é que são elas! É terrível estar alegre assim e ver Paris através de lágrimas. 

      - Monsieur, voulez-vous m'enlever cette vache de dans mon oeil? 

      O farmacêutico espia. O la-la! 

      - Ça doit vous faire du mal, mon p'tit. 
      - Ça m'empêche de voir Paris. C'est mon premier voyage. J'ai pas d'argent sur moi. Je vous payerai demain. 

      Ah, eis que a visão do Louvre se enfoca. Que maravilha! O jovem bolsista pega o Pont des Arts, o lenço enxugando o olho esquerdo, o passo rápido, ao assalto da Beleza. 

      - Hey, Milreis! 

      Não é possível...! 

      - Half-a-crown! 

      São seus amigos Reginaldo Maudling (2) e Charles Steward (3), o primeiro de Merton College, o segundo de Bailliol, em Oxford. Seus melhores companheiros na Universidade. Gente cem por cento. 

      - You, buggards! 
      - Why the hell are you crying? 

      O jovem bolsista explica. Maudling ri a sua boa risada: 

      - Bloody hell! I think we sould have a beer and celebrate! 

      Adeus, Palais du Louvre. Rios de cerveja correrão. Eu conheço Maudling, e sobretudo Steward. Menino danado! Para agüentar tanto líquido, algum tem de escapar pelo ladrão... 

      Três meses depois, em março de 1939, o jovem bolsista, de volta a Paris, foi apresentado a uma menina de 17 anos, fina de corpo, séria de semblante e com uns olhos fugidios de corça. A querida amiga que nos apresentou disse apenas: 

      - Você conhece minha sobrinha... 

      Mas, em sua distração e volubilidade usuais, esqueceu-se de acrescentar: 

      - Você vai se enamorar dela daqui a 18 anos, numa festa em casa de um arquiteto amigo seu, no Rio. Cerca de um ano depois vocês irão se reencontrar aqui em Paris, e você ficará irremediavelmente apaixonado por ela, e há de sofrer como um possesso todas as dores de sua paixão, e na Quarta-feira de Cinzas de 1959 você terá um desastre de automóvel cerca de Petrópolis, onde ela estará veraneando, e você, coberto de sangue, ao se sentir ir morrendo, ela tão perto, olhará a sua morte com um infinito sentimento de pena porque tudo poderia ter sido e não foi; mas você preferirá morrer a ter de viver sem ela, sobretudo depois de lhe ter dito, como disse, numa noite de Sexta-feira da Paixão, no Club St. Florentin, 15 rue St. Florentin, que você a tinha dentro de você sem saber desde a mocidade, desde aquele dia, 19 anos antes, em que eu a apresentei a você, como estou fazendo agora. E você escreverá para ela a "Elegia de Sexta-Feira da Paixão", que dirá o seguinte: 

Amiga, deixa que a noite escolha hoje o teu vestido 
Em vez de Dior, Dessès ou Givanchy. Não te esqueças 
É Sexta-Feira da Paixão. Os castanheiros 
Estão apenas acordando do longo inverno que passaste 
Ao sol, longe de mim. Se vires a Tour Eiffel como uma doida 
Declamando Éluard, não te impressiones: 
Hoje tudo é possível. Lembra-te 
É Sexta-Feira da Paixão. Provavelmente 
Se formos até Pont Mirabeau, encontraremos 
O sargento Appolinaire debruçado mirando o Sena 
Na esperança de alguma afogada. Ah 
As afogadas do Sena! Sinto-as 
Deslizando no meu peito… Mas 
Não te impressiones tampouco com as loucuras que eu disser. 
Olha antes minhas mãos. São 
Como pássaros sem ninho, precisam tanto, tanto 
Ser aquecidas… Vem, amiga, vestida de noite; conta 
A Fábula da Mãe-que-não-Veio. "- Olhe, meu anjo 
Não se constranja, mas se você não puder sair sozinha 
Comigo (figa! diz que pode, diz que pode!) eu compreendo…" 
Amor! e já te amava tanto antes de amar-te... "- Lembro 
Tão bem de você, era março de 39, nós vínhamos 
Pelo Boulervard des Italiens, você teria o quê? uns 16 
17 anos..." (como uma jovem corça arisca 
Ela era, olhava-me de lado, sorria 
Apenas com as comissuras, era linda 
Como um Maillol). "Não, eu posso sim, acho que posso 
Não há mal nenhum, isso é Paris, você não acha?" 
(Acho, meu anjo. Acho tudo o que você quiser. Acho que hoje 
É Sexta-Feira da Paixão, e o Cristo não poderia ter escolhido melhor dia 
Para morrer de amor por nós.) 
"- É, é isso mesmo. Afinal de contas 
Eu sou um velho amigo da família"... (Coisa linda 
Vestida de noite, eu vou te amar tanto 
Mas tanto que o meu amor será captado 
Por todos os radares, e os radioamadores 
De todo o mundo permanecerão em vigília 
Para ouvir, banhados em lágrimas, pulsar o meu coração.) Amada! 
Vamos comer camarões no "Stresa","sauce tartare"? Depois 
Pediremos "fraises du bois" que cobriremos com todo o açúcar 
Que houver no açucareiro. "- Você gosta muito de açúcar? 
De música? De ver cinema bem na frente? De 
Filhinho? De silêncio?" (Então por que não saímos daqui agora mesmo 
E convolamos?) Ah, meu amor 
Que vontade de beijar as árvores noturnas! (enquanto busco 
Acertar o meu passo pelo teu: coisa difícil 
Porque te moves num mínimo de espaço). Amiga 
Que te moves num mínimo de espaço, que graça 
A tua! Como pode uma coisa tão pequena 
Ser tão grande? Onde vão ter esses imensos infinitos 
Que partem dos teus olhos? E qual é o nome 
Do ar que te circunda? "Sous le Vent" de 
Guerlain? Ah, não seja esta a dúvida…Virarei armador 
Irei escolher sementes, flores, resinas 
Nas mais inacessíveis ilhas, de cujo extrato 
Criarei perfumes capazes de te matar de amor por mim. "- Você 
Gostaria de ouvir um bom jazzinho num clube privativo 
De que sou sócio? É simpático… gente moça, boa música 
Borboletas nas paredes. Há uma caixa 
Só de espécimes do Brasil…Vamos?" (figa!) 
"- É, podemos ir um instantinho, só não quero 
Chegar tarde demais…" Amor! 
Ao dançar senti teu rosto roçar o meu, minha boca 
Aflorou tua pele, o meu beijo 
Veio de longe, e o meu amor despenhou-se do vácuo 
Corno um negro sol incendido, varando milênios 
De solidão e desencontro, recuperando 
Infinitos perdidos, espaços 
Abandonados, arrastando no seu vórtice 
Astros sem luz, estrelas moribundas 
Mundos sem amanhã. 


*


Por isso, porque és só minha e eu sou só teu 
É que eu não sou mais eu. 
Foi bem mais que um milagre, vida minha... 
Foi como a própria vida: 

ACONTECEU.


Uma noite, dois anos antes, bêbado e desesperado, eu fora ter a Pont Mirabeau... 

            Uma noite, em Pont Mirabeau 
            Fui me encontrar com Appolinaire 
            Como falamos de mulher 
            Como falamos de Rimbaud! 
            Não sei, mas alguém que me viu diz 
            Que eu tinha tomado muito uísque. 
            Sob a ponte corria o Sena 
            Como no poema do poeta 
            A água corria negra e inquieta 
            Como a vazar da minha pena. 
            Amar? Melhor morrer... Appo- 
            Linaire, pálido, concordou. 

            Merda! Merda! Três vezes Merda! 
            Vociferei para a cidade 
            Enquanto a réplica de pedra 
            Da Estátua da Liberdade 
            Perscrutava com um olhar frio 
            Paris à escuta em torno, e o rio. 

            - T'es dans un bien sâle état 
            Mon pauvre vieux. - Appolinaire 
            Disse para me consolar 
            Assim com um ar de quem não quer. 
            - Va te efaire foutre! Tu m'emmerdes! 
            Respondi - e ele ficou verde. 

            E vomitei dentro do rio 
            A gargalhar do caporal 
            Que, os punhos cerrados, partiu 
            Num duro passo marcial 
            Enquanto duas mulheres, defronte 
            Vinham andando pela ponte. 

*


Uma outra noite, perdido em Menilmontant, eu tivera a visão da miséria. Era um beco sem saída, um impasse, um cul-de-sac estreito, fétido e perfeitamente comme il faut. 

            Un cul-de-sac aux murs étroits, 
            Un p'tit chat noir que se promène, 
            Un vieux soulard que a de le veine 
            De se trouver coincé comme ça; 
            Une fenêtre qui s'entr'ouvre, 
            Une main qui sort et qui vide 
            Un jules tout plein dans le vide 
            Juste sur la tête du clochard. 

            Un chien qui fouille dans la poubelle, 
            Un chien qui aurait suivi Prévert, 
            Une putain qu'sent Ia vaisselle 
            Et qui aimerait prendre un verre; 
            Des voix de gens qui font l'amour 
            Et qui vachement en profitent, 
            Un monsieur du XVlème qui a peur 
            Et dont les pas s'en vont bien vite... 
            O cul-de-sac aux murs étroits 
            Combien des gens ressemblent à toi... 
            Combien y en a-t-il dans la rue 
            Qui sont des culs-de-sac qui puent... 
            Combien de grands dames aux grands airs 
            Combien de riches et gros bourgeois 
            Combien de hauts fonctionnaires 
            O cul-de-sac ressemblent à toi! 

      Mas uma tarde, reencontrado em Paris, as mais fundas feridas cicatrizando nos óleos do amor, eu tive a visão da Beleza. Era ela, Notre Dame de Paris, a grande catedral, a cuja porta eu aguardava a minha amada, e que com braços maternais nos abrigava da multidão, isolava-nos no nosso mundo de ternura e tristeza. Ali, a dois passos, ficava a rue St. Julien-le-Pauvre. Havia uma casa de chá de tipo inglês chamada The Tea-Cady: 

            Eu te levei ao "Tea-Cady" 
            Na Rue St. Julien-le-Pauvre 
            Very British o "Tea-Cady" 
            Na Rue St. Julien-le-Pauvre... 
            Veio tea, toast and marmelade 
                        O my sweet Lady! 

            Um mês ocultamos ali 
            O nosso mágico impossível 
            Era tão belo tudo ali 
            Que parecia irremovível 
            Mas, ai, chegava sempre a hora 
                        De ires embora. 

            Hoje, embora incréu, não me assombra 
            Saber que ter-te e ser feliz 
            Deve-se a havermos estado à sombra 
            De Notre Dame de Paris 
            E a meu amor ter dez no exame 
                        De Notre Dame. 

*


      Eis por que não quero fechar esta reportagem lírica sobre a bem-amada cidade sem recitar-lhe uma oração a ela, a gloriosa Nossa Senhora de Paris, que Xangô meu pai há de proteger, são Jorge meu padrinho há de defender, e que há de viver para sempre na sua floresta gótica para abençoar os namorados de todo o mundo que se encontram em Paris e que vão ocultar na sua sombra a angústia de não poderem viver o próprio amor. 


1 Cícero Dias, imigrado para Paris dois anos antes 
2 O ex-Paymaster General do Gabinete Macmillan. 
3 Oficial aviador, morto em combate na Batalha de Londres. Maudling me chamava "Mil-réis" e eu o chamava "Half-a-crown", pelas moedas de nossos países.